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“Rompi o ciclo de pobreza da minha família”

lucineide

Lucineide do Nascimento, 44, nasceu nos arredores de Natal (RN), trabalhou na roça desde cedo e, se tudo tivesse corrido como o planejado pelo seu pai, teria casado cedo e continuado com a vida humilde no campo.

“Mas eu era atrevida e bati de frente com meus pais”, diz ela. Aos 17 anos, decidiu ir para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como empregada doméstica e depois, já em São Paulo, como representante comercial, vendendo utensílios domésticos.

Em 2007, em busca de mais autonomia, decidiu abrir um negócio próprio, de sacolas reutilizáveis de algodão cru – justamente a matéria-prima que plantava e colhia em sua juventude no Rio Grande do Norte.

Sua história retrata algumas das transformações do Brasil na última década, da ascensão de milhões de pessoas à classe média às mudanças que isso desencadeia na dinâmica das famílias e do mercado de trabalho – sobretudo entre o sexo feminino.

Hoje, a potiguar é a dona da empresa que sustenta sua família e emprega seu marido e um dos dois filhos (de 15 e 17 anos), produzindo 10 mil sacolas por mês, na zona sul de São Paulo. Ela diz que aprendeu a delegar tarefas da casa para poder dar conta do crescimento da empresa e “para poder ter tempo de encontrar as amigas”.

E ajudou a mudar a realidade de seus parentes no Nordeste.

“Somos uma família enorme, de sete filhos, muito humilde. A gente não tinha nem energia elétrica. Meu pai tinha medo que fôssemos para a cidade grande, queria que eu casasse (enquanto) nova e ficasse na roça, tendo uma vidinha pacata. Eu fui a ovelha negra, mas hoje sou o orgulho da família. Todos moram na cidade, decidiram estudar, muitos estão se formando na faculdade. Ajudei eles a sair do ciclo de pobreza.”

Você veio de um ambiente rural e de outro em mutação, que é o do trabalho doméstico. Viveu machismo ou preconceito?

Cheguei a ser humilhada por patrões por ser nordestina e, como representante comercial, sofria com cantadas. Mas hoje me sinto respeitada. Brinco que, quando subo no salto, não há quem me enfrente!

Aqui no Brasil ainda existe preconceito, (muitos) acham que a mulher veio ao mundo para cuidar do lar, e mesmo em empregos iguais, ganha menos que o homem. Isso está mudando aos poucos, nós mesmas somos as maiores responsáveis por quebrar isso. O que pensei é: se tenho capacidade, por que não abrir meu próprio negócio?

Tive uma trajetória muito difícil, de muito sofrimento. Vim (do RN) muito ingênua. Mas meu pai diz que eu sempre fui atrevida. Enquanto era profissional autônoma, comecei a buscar informações sobre o que era ecologicamente correto, liguei para (a ONG ambiental) Greenpeace. Aprendi que, para substituir as sacolas de plástico, o melhor eram sacolas de algodão cru, (tecido) que se decompõe.

Comecei comprando no atacado e vendendo as minhas sacolas para escolas ou para empresas de brindes, que eram intermediários. Agora vendo direto para o consumidor final e quero triplicar minha produção. O negócio cresceu no boca a boca.

Que papel a educação, formal ou informal, teve na sua formação?

Só estudei até o terceiro colegial, mas fiz um curso de capacitação no Sebrae.

Meus pais sempre me disseram que confiavam em mim. Isso me fez enxergar que era uma pessoa de muito potencial. Então sempre me cobrei muito, me achei no direito de crescer.

Para os meus filhos, a lição que eu quero passar é de superação e integridade. Eles são motivo de orgulho para mim porque têm a cabeça boa, são preocupados com o futuro. Eles me dizem, “mãe, te admiro. Você é uma mulher forte”. Um deles vai cursar engenharia na faculdade.

Na roça, (minha família) antes só queria ter filhos, havia muita ignorância. (Falava para eles) que a educação e o conhecimento são importantes. Ajudei a minha irmã em Santa Cruz do Rio Grande do Norte, que fazia marmitas, a fazer o negócio dela crescer. Comprei um terreno para ela, que montou uma cozinha e um salão. Agora, eles têm planos de abrir uma churrascaria.

 

 

Fonte: DCM