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Notícias de Beleza

Quem se acha feio perde a capacidade de admirar a beleza dentro de si mesmo

José Luiz Tejon Megido

 

José Luiz Tejon


Como podemos abordar a superação no tema beleza? A ditadura que se impõe hoje. Interessante observar um desfile das mais belas e belos modelos do planeta: eles não riem. Rir é exceção. A beleza, ou a percepção do que seja o belo, já provocou desgraças e continua causando para muitos ao longo de todo o tempo.

Uma linda menina de cabelos encaracolados, que era um padrão de beleza em alguma época do passado, não suportava ser chamada de "menina Bombril" por seus colegas no sempre presente bullying. Por causa disso, na adolescência, passou a fazer escova para ficar igual às outras meninas: cabelo liso e louro. Ao ficar igual às demais, foi percebendo que sua beleza era simplesmente mais uma. Todas tinham a mesma etiqueta, o mesmo padrão, ficavam iguais, tal qual commodity: arroz igual a arroz. Depois dos 35 anos assumiu novamente seus cabelos encaracolados. Faz escova? De vez em quando, só para variar. Porém, veja o que um simples cabelo e uma percepção da massa sobre a beleza podem fazer no estado psicológico de uma bela mulher. Isso funciona como uma daquelas poderosas distrações que tiram o foco do seu dom, da sua vocação e do seu melhor, fazendo com que muita energia seja gasta na preocupação com um cabelo enroladinho versus lisinho, como se isso representasse a encruzilhada decisiva da sua aceitação pelo mundo ou não!

Admiro muito a Priscila Sotério. Conheci-a em uma palestra no Hospital do Câncer, uma autêntica guerreira. Desde pequena, com uma terrível doença no rosto, nos olhos, fez cirurgias em cima de cirurgias e todos os tratamentos imagináveis. Porém, Priscila conseguiu colocar um anteparo entre os nossos olhos de observadores e a sua pessoa. Ela foi além da superação, pois superar no caso dela seria somente manter-se viva. Priscila instalou a beleza da sua alma entre quem olha até que as ondas da luz desses olhares cheguem ao seu rosto e ao seu corpo. Dessa forma, o que sentimos ao olhar para a Priscila é a beleza de uma princesa de conto de fadas e a dignidade de uma rainha bondosa. Priscila veio me visitar um dia com seu marido, um homem que a amava profundamente. Priscila falava dos seus planos de trabalho. Ela é jornalista e vive inspirando e estimulando um monte de gente a transformar as adversidades da vida em permanente superação. Ela poderia ser egoísta, ser uma pedinte e viver com pena de si mesma. Nunca faz isso. Priscila é doadora e não tomadora.

Outro dia me pediu um texto para acalmar as mulheres gordas, pois escreve em um site e sente que a obesidade é um terror para as mulheres. Mandei para ela um trecho do livro As esganadas, de Jô Soares: "Existe um preconceito velado contra a obesidade. Na verdade, dificilmente os homens o sentem. Podem ser gordos, inteligentes ou ricos ou oferecerem tantos outros atrativos. Quem sofre o problema com maior intensidade são as mulheres. As mulheres gordas. Os eufemismos mais comuns são: cheinha, forte, grande e, o mais ousado, gordinha.

Geralmente, acham que a gorda (odeio a palavra obesa) não tem força de vontade. Nem caráter. Nem vergonha na cara. A gorda é um pária; o excesso de peso é um divisor de águas. O próprio adjetivo é um palavrão. Ninguém se importa com o sofrimento ou com a humilhação da gorda. Acham que ela é gorda porque quer. Os figurinos são para as magras. Alguns vendedores ainda informam sem se alegrar: 'Aqui é só para pessoas normais, madame!'. E a gorda se afasta engolindo o ultraje. Restam-lhe as lojas especializadas ou as costureiras de bairro. Para mim, anormal é o tratamento do vendedor. A obesidade é democrática, não faz diferença de classe. Há gordas ricas e gordas pobres. Existem gordas belas, mas, se a beleza é notada, há sempre um apêndice ao comentário: 'O rosto é lindo. Pena que seja gorda'.

Mesmo entre os belos é impressionante o que emerge de baixa autoestima, e de um olhar meticuloso sobre os microdefeitos amplificados sobre si mesmo. Os belos não se veem tão belos assim, e as belas sofrem muito. Precisa haver a superação sobre a obrigação de ser belo, seja para a gorda, para o magro destrambelhado, para o narigudo, para a de cabelo encaracolado, para a do pezão, para o do bocão ou mesmo para a belíssima que sempre encontra na pontinha da sua orelha o que pensa ser um defeito e instala correndo ali um piercing camuflador.

Eu e a querida Priscila deixamos de ser patinhos feios interceptando essa torrente aniquiladora e trouxemos o nosso cisne para o lado de fora. Para ela acrescentei as impressões de Domenico de Masi em seu espetacular livro La felicitá, ao lado de Oliviero Toscani: "Milênios se passaram para que a humanidade descobrisse (ou inventasse) o pós-vida, o eterno, o sempre (l'aldilà). Com a vida eterna criamos uma primeira grande consolação para suportar a dor de um fim definitivo, que é substituído pela felicidade da esperança.

Mais recentemente na história humana, desenvolvemos outra forma de superar a finitude: a beleza da natureza, e surgiu também algo novo, uma fonte transcendente à beleza e o surpreendente da 'arte'. A evolução do animal ao ser humano é uma passagem lentíssima, e ainda longe de estar concluída. A descoberta da eternidade, para compensar a morte nesta vida, a descoberta da beleza para compensar a dor são duas etapas fundamentais. Por trás de toda a expressão humana, a religião e a estética são as que mais impactam a nossa felicidade".

A superação da beleza passa por sublimarmos os três lindos caminhos sintetizados em La felicitá: o belo é o eterno, o belo é o surpreendente da estética na arte e o belo é o que cada um faz com a sua angulação estética, o que passa pelo rigor ético. Para trazermos tudo isso para um entendimento bem simples, digo sempre: crie. Trabalhe. Produza. Ao criar, a estética da bela criação assume a sua forma humana, e você cria o anteparo da força d'alma para refletir todos os olhares e sentidos que são depositados sobre você. Quem se acha feio está simplesmente exportando uma visão própria e íntima e perde a capacidade de admirar o belo, principalmente aquele que já existe dentro de si mesmo.

Fonte: Exame