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Notícias de Beleza

Fora da maternidade: mães escolhem dar à luz em casa

Famosas como Gisele Bündchen e Carolinie Figueiredo optaram pelo parto domiciliar

 Por: Nathalia Ilovatte

 maternidade
Em trabalho de parto e prestes a dar à luz, a dona de casa Rivania Rosa da Silva ouviu do obstetra a notícia de que o filho, Vinícius, estava entrando em sofrimento fetal e poderia morrer. Uma cesárea foi feita e o primogênito nasceu saudável, mas Rivania se desesperou.

 — Comecei a sofrer ataques de pânico, depressão e ansiedade. Tive depressão pós-parto, precisei de tratamento psiquiátrico e psicológico. E não tinha sofrimento fetal nenhum. Era mentira.  

Hoje, Rivania sequer acredita que a cesárea fosse mesmo necessária, e na segunda gestação preferiu procurar uma alternativa à realidade de muitos hospitais brasileiros: um indíce de cesáreas muito superior ao indicado pela Organização Mundial de Saúde.  

— Para mim, o parto domiciliar é o melhor parto. Sou saudável, tive uma gravidez de baixo risco, e minha casa é o lugar onde me sinto mais segura, confortável e tranquila.  

Rivania buscou uma equipe especializada em parto em casa e fez todos os exames necessários para garantir que ela e o bebê estavam em perfeitas condições de saúde. O momento em que Raul veio ao mundo superou as expectativas da mãe de segunda viagem.  

— Durante meu trabalho de parto me senti forte e segura. Hoje me sinto realizada e feliz.  

Como é o parto em casa  

Dar à luz em casa foi a opção de famosas como Carolinie Figueiredo, que teve o caçula Theo no banheiro, e de Gisele Bündchen, que deu à luz Benjamin e Vivian em uma banheira. Se antes ele era a alternativa que restava a mulheres de pouca renda e de áreas rurais, agora é a escolha de quem tem à disposição também as cesáreas em hospitais.  

De acordo com a enfermeira obstetra Joyce Koettker, membro da Equipe Hanami de parto domiciliar planejado, dar à luz em casa nada tem a ver com as cenas trágicas e cheias de sofrimento mostradas em filmes e novelas. Ela explica que a gestante é preparada e aconselhada durante toda a gravidez, para que no momento do parto não fique tensa nem insegura.  

— O atendimento começa no primeiro contato. Até o bebê nascer são diversas conversas e atividades gratuitas para conhecer histórias de parto natural, cesáreas, bebês que ficaram na UTI neonatal e outros casos.   

A futura mamãe deve fazer também um curso preparatório e o pré-natal tradicional. Joyce explica que é necessário saber se não há nenhuma doença associada, se é um bebê só, se está virado de cabeça para baixo e se a gestação é toda tranquila.   

A partir da 37º semana uma enfermeira da equipe vai semanalmente na casa da gestante para fazer exames e verificar a pressão arterial.  

— Trabalhamos também aspectos emocionais que podem influenciar na hora do parto. Se a gestação é difícil, não foi planejada, tem medo da dor, histórico de violência na família.  

Quando a gestante sente que está em trabalho de parto, liga para uma das enfermeiras do grupo, que corre para a casa da família. As demais profissionais da equipe só chegam quando o trabalho de parto está evoluído.   

Enquanto o bebê não vem, a mãe pode caminhar, ir ao banheiro, comer, se hidratar e receber uma massagem.   

— Quando começa a aparecer o cabelinho do bebê, ela se prepara para o parto. Nós trabalhamos com a saída lenta da criança, então não mandamos fazer força.  

Depois da chegada do bebê ao mundo, fica algum tempo no colo dos pais e passa por exames físicos e neurológicos. A mãe ainda recebe ajuda na saída da placenta e no controle do sangramento, quando necessário.   

— Após o parto ainda ficamos cerca de três horas na casa.  

Dar à luz em casa é seguro?  

Em 2012, uma australiana morreu após ter seu segundo bebê em casa. Caroline Lovell era uma defensora do direito ao parto domiciliar, e chegou a ser transferida a um hospital, mas morreu no dia seguinte à internação. Desde então nenhum outro caso semelhante ganhou o mundo.

De acordo com o obstetra Sergio Luz, membro da Federação Brasileira da Associações de Ginecologia e Obstetrícia, o parto pode ser natural e em casa, se a mãe optar pelo acompanhamento de profissionais que trabalhem dessa maneira. Ele acredita que a escolha do melhor lugar a dar à luz cabe à mulher.  

Mas há alguns requisitos a atender.  

— É necessário que ela seja classificada como baixo risco, para que não tenha complicações severas e nem no desenvolvimento do bebê no útero. E a grande maioria das mulheres no Brasil teria condições de ter parto em casa.  
Luz considera importante ter um hospital como opção, para o caso de emergências. E cabe à equipe cuidar dessa questão e orientar a mãe sobre isso.   

O médico afirma que no parto domiciliar existe um risco para o bebê, mesmo que a saúde pareça perfeita no pré-natal. Mas ele é mínimo.  

— Existe um pouquinho mais de risco para o recém-nascido. É pequeno, quase desprezível, mas existe. Se ele nascer um pouco doente e precisar de atendimento hospitalar, cada minuto é importante.   

Estatísticas do nascimento  

A Organização Mundial de Saúde recomenda que, em cada país, apenas 15% dos nascimentos seja por cesárea - somente quando a cirurgia é inevitável. Entretanto, no Brasil, essa taxa chega a 43% ao ano. Na rede privada, o índice é de 82%.   

Os motivos para esse índice elevado de cesáreas, de acordo com Luz, vão desde uma ideia errônea de que parto normal é para quem não tem dinheiro para uma operação, até o desejo de fazer o filho nascer no dia do aniversário do pai, por exemplo. A necessidade de muitos obstetras de organizar a agenda e não perder muito tempo com cada parto é outro fator a influenciar esses números.   

As condições do parto no Brasil também preocupam. Em uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, 25% das entrevistadas relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora de dar à luz. Enquanto algumas relataram falta de auxílio da equipe médica, outras foram agredidas verbal, física e até sexualmente por enfermeiros e médicos.     

Não existe lugar certo para parir  

Com aversão a médicos, remédios e hospitais, a jornalista e fotógrafa Kalu Brum se descobriu, em 2006, grávida.  

— Só sabia que não queria nenhum tipo de medicamento no meu corpo.  

Começou a pensar em um parto natural, mas sem saber que existia de verdade e que tinha esse nome. E depois de muitas pesquisas e contatos, a moradora de São Paulo chegou a um hospital referência em parto normal natural e que presta atendimento pelo Sistema Único de Saúde.   

— Cheguei e fiquei encantada. Me surpreendi com a casa de parto. Tudo tão tranquilo e lindo!   A casa de parto em questão faz parte do Hospital Sofia Feldman, de Belo Horizonte, Minas Gerais. Lá, Kalu descobriu que seria possível dar à luz em casa. Mudou-se para a cidade e se preparou para esse momento, tão feliz e satisfatório que, por causa dele, a fotógrafa se aprofundou no assunto e hoje é doula e voluntária em um centro de apoio para gestantes.  

Quando atende uma mãe, Kalu reúne informações científicas para possibilitar que ela tome a decisão que achar melhor.  

— Não existe melhor lugar para parir. Tendo uma boa equipe é possível ter um parto sensacional numa maternidade. A escolha do lugar é onde a mulher se sente segura, e o que procuro mostrar é que muitas vezes os medos são infundados, que o parto é algo simples e fisiológico que poderia acontecer com segurança, como apontam as evidências, em 85% dos casos em casa. 
 
 
 
Fonte: R7