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O início da Red Bull tem a ver com pasta de dente (A importância do planejamento)

RED-BULL BLOG

Dietrich Mateschitz, criador da Red Bull

 

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo no Insper

 

Sou errada, sou errante. Sempre na estrada, sempre distante. Vou errando enquanto o tempo me deixar…

Muitos empreendedores escutam esta música em suas manhãs. E ela continua tocando o dia inteiro até o momento em que vão dormir.  Não é porque ainda são fanáticos pela Paula Toller. Muitos nem sabem o que é o Kid Abelha. Mas a música está lá… ‘Sou errada, sou errante. Sempre na estrada…’ Ela é tocada em silêncio e muitos nem percebem por que estão errando enquanto o tempo lhes deixarem.

Para os que não tem noção por que erram, o início da música explica: ‘Nada sei dessa vida. Vivo sem saber. Nunca soube, nada saberei. Sigo sem saber…’

Errar, neste caso, não é o inverso de acertar, mas caminhar sem destino, não ter um plano, um objetivo. E é por isso que muitos empreendedores erram. Nada sabem do mar em que atuam, nadam sem saber.

Mas como sair deste mar vermelho sangrento de concorrentes desleais e navegar em um oceano azul tranquilo?
A primeira medida é se despedir desta música com uma boa bebida! É importante celebrar este rito de passagem! Mas qual seria a melhor bebida?

A que o austríaco Dietrich Mateschitz escolheu deu um estalo em seu cérebro. Em 1982, ele estava sentado no bar de um hotel em Hong Kong, quando pediu algo para beber. Estava na região para tentar aumentar as vendas da pasta de dentes da Blendax, empresa alemã em que era executivo de contas. Vender pasta de dente não é exatamente o emprego dos sonhos da maioria das pessoas. Como diferenciar um produto em que todos os demais concorrentes também deixam os dentes mais brancos, o hálito mais fresco e que também combatem as cáries e as placas bacterianas?

Mas quando ingeriu aquela tal de Krating Daeng, as sinapses do seu cérebro se iluminaram. Mas o que era aquilo?
Descobriu que a bebida era feita na Tailândia e era muito comum na região pois se alegava que ela aumentava a capacidade de processamento mental e a resistência física. Por isso, era classificada como bebida enérgica. Se Dietrich soubesse que Krating Daeng significava a “água do touro vermelho”, talvez nem tivesse experimentado. Mas agora era tarde. Estava fascinado com seus efeitos.

Como não existia nada parecido na Áustria, Dietrich ficou obcecado em levar o tal touro vermelho para a Europa. Por esta razão, colocou em prática sua maior competência: planejamento. Analisou todo o mercado, os principais fabricantes, as barreiras para levar o produto para mercados regulados, como o europeu, e elaborou um plano.

Convenceu o fabricante tailandês do Krating Daeng a ser seu sócio em uma startup criada para explorar o produto no Ocidente. Com isso, teve acesso rápido à formula e à capacidade de produção. Mas isso não era o bastante em sua opinião. Acostumado a analisar mercados, sabia que precisava de uma nova fórmula que fosse mais adequada ao paladar europeu, uma marca fácil de ser lembrada, uma embalagem que se destacasse das outras bebidas, uma estratégia de marketing que diferenciasse o produto e o distanciasse dos produtos sexuais milagrosos.

E o mais importante: a aprovação do governo austríaco para comercializar o produto de forma livre, sem ter nenhum aspecto medicinal que o limitaria ao mercado farmacêutico. Tudo isto demorou cinco anos, mas antes que a água do touro vermelho fosse lançada oficialmente, Dietrich já vinha fazendo testes de mercado, fórmulas, embalagens e estratégias de comunicação na Hungria, país menos rígido para este tipo de inovação.

Quando o produto chegou oficialmente ao mercado em 1987 ele tinha um planejamento milimétrico sobre o quê e como deveria fazer para aproveitar o mercado de bebidas “esportivas” que ganhava terreno naquele momento. Para posicionar o produto no mercado premium, elevou o preço, reduziu o volume (se comparado às latas de refrigerante), criou uma reluzente embalagem prata e azul e, sabiamente, manteve parte do nome original da bebida, em inglês: Red Bull.

Esta confusão entre um nome vermelho em um símbolo azul também ajudou na divulgação do produto pois gerava discussão entre os consumidores e formadores de opinião. Como assim chamar um touro azul de vermelho?

Tirando as receitas caseiras mágicas para “levantar o moral”, a Red Bull avançava em um mercado praticamente sem concorrentes. E mesmo assim, Dietrich não descuidou em sempre mirar formadores de opinião que eram compostos de jovens modernos, audazes e irreverentes, que é um tipo sofisticado de inteligência.

Seu plano de negócio mirava a liderança global do mercado e foi exatamente isso que a Red Bull conseguiu poucos anos depois, afinal, não fazia muito sentido uma empresa que produz bebidas energéticas também não sê-la.  Assim, com ou sem Red Bull, busque a energia para tirar essa fixação de ficar errando, espante os fantasmas da sua empresa e dê asas à sua capacidade de planejamento e execução.

 

 

Fonte: Estadão